O Mago e o Assassino

16/08/2020

- Não temos tempo à perder, Lehkaan! Você precisa tirar o Pingente Salutar daqui o quanto antes - falou o altivo conjurador, líder da ordem dos magos de gelo enquanto corriam pelos corredores de pedra cinzenta.

- Sim, senhor! Estou pronto para essa missão - disse Lehkaan forçando-se a acreditar nas próprias palavras enquanto corria atrás de seu senhor.

Lehkaan era um humano com os ombros curvados pelo peso dos anos. Tinha cabelos e barbas brancos como a neve do Reino Gelado, porém, apesar da idade, era o mago mais novo admitido na ordem. Sabia que uma missão tão importante como àquela, com toda certeza, seria designada a um mago muito mais experiente e poderoso que ele, entretanto, todos esses seus irmãos da ordem, protegiam a Torre Sempre-Dia do ataque que se aproximava.

- Preste atenção! - alertou. - Depois de cruzar as Colinas Brancas, chegará a Planície da Geada. De lá, basta atravessar o Lago Congelado e, na base da Montanha de Safira, encontrarás a caverna onde fica Ellera.

- Entendi, senhor Torline...

- Eu ainda não terminei, Lehkaan - continuou com o olhar preocupado retirando uma chave acobreada de dentro do manto e destrancando a pesada porta de madeira.

Dirigiram-se para um baú que ficava no fundo da sala redonda. Torline usou a mesma chave para abri-lo e retirou de lá um pingente preso numa correntinha de prata.

Lehkaan concentrou toda sua atenção ao objeto mágico quando o líder depositou-o em suas mãos. O pingente era circular e achatado e sua aparência de um brilhante olho azul em constante movimento.

- Você deve protegê-lo com a sua vida - disse Torline apressando-o. - Agora vá!

Antes de o admirar, um estrondo se fez ouvir e vários estilhaços de madeira voaram por todo o ambiente.

- Vá! - disse Torline entregando um cajado de madeira nas mãos de Lehkaan e empurrando-o da janela da torre, não sem antes dele ver quem havia destruído a porta: uma silhueta esguia de lâminas nas mãos.

A queda do alto da Torre Sempre Dia foi rápida e Lehkaan não teve tempo para pensar. Sussurrou algumas palavras mágicas e, da ponta do cajado, inúmeras penas surgiram formando como que um colchão por debaixo dele, a poucos metros do chão, amortecendo sua queda.

Quando seus pés tocaram a terra firme, pode ouvir sons de luta no aposento onde esteve segundos antes. Preocupou-se com a vida de seu líder. Se ele morresse, seria a terceira pessoa mais importante que perderia na vida. Ainda hoje, quase dois anos depois, não conseguia se perdoar por ver sua filha perecer nas mãos de assaltantes, contudo, o mais importante neste momento, era proteger o Pingente Salutar.

Esgueirou-se rodeando a construção cilíndrica e dirigiu-se ao estábulo imediatamente atrás da torre. Quando aproximou-se, sentiu o cheiro de fumaça e viu as chamas que lambiam as paredes de madeira.

- Velho como estou, não posso seguir a pé nessa missão. Preciso de um cavalo - disse para si mesmo tentando criar coragem para entrar no estábulo em chamas.

As palavras surtiram efeito. Lehkaan respirou fundo enchendo o peito de ar e de coragem e adentrou ao recinto. Os poucos cavalos que ainda não haviam morrido por conta da fumaça ou do fogo, estavam desesperados e tentavam, a qualquer custo, saírem dali.

Libertou-os de suas baias incendiadas e todos dispararam em todas as direções pelo pasto congelado. Graças aos deuses, um deles estava selado. Era Bastion, o cavalo do líder. Em situações comuns, ninguém podia tocar em seu alazão, porém, aquilo definitivamente não era uma situação comum.

Lehkaan sabia que, se tentasse soltá-lo de maneira convencional, não teria forças para dominá-lo e este também fugiria. Suplicou o auxílio de Cadoth, semideus dos animais domesticáveis e, com sua benção, acalmou o corcel com um sopro de paz.

A magia fora tão poderosa, que mesmo em meio a todo caos do incêndio, o animal inclinou-se levemente para facilitar ser montado pelo mago.

Lehkaan guardou o pingente em um dos bolsos de seu manto, montou no cavalo e partiu pelo caminho narrado por seu líder.

Antes que se passasse uma hora, havia cruzado as Colinas Brancas e chegado na Planície da Geada, só então diminuiu o ritmo de galope para trote e continuou seguindo enquanto a noite caía.

Ouviu passos de um cavalo que se aproximava. Quando virou-se para tentar descobrir o que era, Bastion foi atingido por uma flecha disparada por seu perseguidor. Esta atingiu a anca direita do animal fazendo-o empinar. Lehkaan, que não tinha em dominar montarias, tombou sobre a fina camada de neve que recobria a grama da planície.

A queda não lhe causara danos consideráveis. Ergueu-se rapidamente então caminhou em direção a seu atacante.

O inimigo, desmontou do cavalo, estapeou uma de suas ancas dispersando-o para longe.

O velho caminhava pela planície iluminada pela luz da única lua cheia, pois a segunda lua de Daleroth, nesta época do ano, não aparecia nos céus do oeste. Ao longe, viu a silhueta de seu inimigo aproximando-se. Este trajava uma máscara avermelhada, com presas salientes e duas lâminas longas, uma em cada mão.

Sussurrou algumas palavras mágicas enquanto fazia gestos com a mão esquerda em direção ao seu cajado. Apontou-o para o céu e instantaneamente uma nevasca preencheu a planície colocando-se entre ele e o assassino.

Este parecia não se importar e, munindo-se de uma leveza de movimentos, parecia dançar enquanto corria na direção de Lehkaan, com as lâminas ainda em punhos.

O velho deu alguns passos para trás e em seguida, apontou o cajado na direção do assassino. O vento da nevasca mudou de direção e soprou fortemente contra o inimigo fazendo-o tombar. O conjurador esboçou um leve sorriso, contudo, o homem mascarado levantou-se rapidamente e correu em direção ao velho.

Sabendo que não teria mais tempo de conjurar outra magia, Lehkaan se preparou para o pior. Deu mais um passo para trás e segurou o cajado com as duas mãos.

O inimigo gritou com uma voz assustadoramente aguda quando alcançou o conjurador, desferindo dois cortes cruzados com suas lâminas. Lehkaan abaixou-se, mas foi surpreendido por uma joelhada no rosto, fazendo-o tontear e cair. Recuperou os sentidos à tempo de ver seu oponente tentar perfurá-lo.

Rolou para o lado e apontou o cajado em direção ao rosto dele. A nevasca novamente soprou forte, dessa vez vindo debaixo para cima e, mais uma vez, o assassino foi ao chão, entretanto, agora estava sem máscara.

Lehkaan levantou-se, observou o inimigo e estacou.

Seus sentidos pareceram congelar.

Um misto de sentimentos preencheu seu coração e ele não sabia como agir.

Reconheceria aquele rosto mesmo que tivessem se passado mil anos. Sua filha, que pensava estar morta, estava à sua frente, com as lâminas em punho.

- Filha... - começou.

- Não me chame assim! - bradou a garota com tristeza nos olhos. - Meu pai morreu a quase dois anos.

- Não morri, filha. Estou aqui...

- Já disse para não me chamar assim! - bradou ela enquanto se punha de pé. No instante seguinte acertou o rosto de Lehkaan com um potente soco fazendo-o cuspir sangue. - Entregue-me o pingente, velho.

- Aylanna, esse pingente não pode cair nas mãos erradas. Vou protegê-lo com minha vida.

- Como quiser! - respondeu Aylanna, deu um passo para trás apenas para tomar impulso para executar seu ataque. Lehkaan ainda levantou o cajado tentando defender-se, porém o golpe veio muito antes do esperado e então tudo ficou escuro.

***

Antes de abrir os olhos sentiu seu corpo gélido. Ficar desacordado durante a noite numa planície congelada não era uma boa ideia. Sentou-se e sentiu uma forte dor bem no meio da cabeça, onde tinha sido atingido pela própria filha. Não perdeu tempo vasculhando seu manto para saber se o Pingente Salutar ainda estava ali.

- Aylanna estava mentindo - disse para si próprio enquanto esforçava-se para se colocar de pé. - Se ela me considerava morto por todo esse tempo, deveria ter colocado fim a minha vida e não apenas me desmaiado - esboçou um vago sorriso.

De agora em diante Lehkaan teria duas missões, recuperar o Pingente Salutar afim de levá-lo a Ellera e recuperar o amor de sua filha.

Suspeitava que a segunda fosse muito mais difícil.

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